Pássaros do lado de fora

Tecla após tecla, meus dedos tocam o teclado. Sem consciência ou sequer emoção, tudo que me vem a mente é o vazio e a ânsia de continuar. Minha mão doí, e o que está a minha frente, o que deveria ser minha salvação, percebo, me condenou.

Escuto pássaros do lado de fora. Onde é o fora?  – Não sei. Posso dizer que os pássaros estão do lado de dentro. Cumprindo seu papel, desempenhando sua função com para o universo, cantando e cantando, com o intuito de tornar o mundo a mais  bela ou trágica sinfonia. Malditos esses pobres seres condenados, simplesmente, por serem o que são. Seres que nunca poderão se deleitar com a fatídica consciência do ser real. 

Eu lhes invejo. Escuto pássaros do lado de dentro. Me sinto perdida, aqui neste quarto, do lado de fora. Tudo que faço é uma rotina incompreensível de páginas de sites, através do vidro. A promessa, essa,  foi aterrada por quilômetros de memórias.

Somos feitos de memórias, infelizmente,  não só daquelas que nos fazem contrair a boca e fechar levemente os olhos, para flutuar no ar e sorrir. Mas também, daquelas que sussurram ao nosso ouvido, que a melhor opção para um bom dia, é se ausentar, e que o nada, que prevalece intacto para o amanhã, não faz sentido. Faz dias que nego a mim mesma coisas que estão acontecendo. Lentamente estou perdendo, todo esse crepúsculo ainda está lá, ainda existe. Pobre alma permanente. Tentei proteger o meu eu de mim mesma. Mesmo vivendo o último mês,  e cometendo os mesmos erros que ficaram gravados em mim e que facilmente se reproduzem no piloto automático, ouso acreditar.

Sinto o travesseiro macio atrás da minha cabeça, massageando levemente,  dos meus cabelos cacheados,  até meus ombros magros e rígidos, estressados, por constituírem um corpo que pensa tanto em absolutamente nada. Olho para a parede e me hipnotizo com o mofo que desce e se perde atrás da comoda. Parte dos meus livros, presumo, chegam também a encostar no mofo. Mas quanto a isso,  não a nada a se fazer, já que esse, tragicamente,  é o melhor local da casa para guardar essas relíquias.

Respiro fundo, sinto o ar tocando minha pele, e por algum motivo, que neste momento não posso explicar, sinto que devo continuar. Algo em mim ainda resiste. Estou condenada ao irreal, e tenho consciência de que, minhas escolhas e ações, apesar das interferências do mundo exterior e dos passarinhos, são de minha responsabilidade.

 

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Gotas da primavera 

Gotas de chuva estão batendo na minha janela. Desfruto do barulho suave, o choque da água de encontro ao vidro. Paz, reconforto e o prazer da solidão; por alguns minutos me deixo inundar por essas sensações.

Meus olhos se abrem. Me perco em minhas memórias, observando o teto branco e mal acabado. Não quero parecer ingrata, papai ficou dias trabalhando a fio, para que a casa tenha cor, para aparentar vida. Mas isso não me impede de ver e ficar contando as imperfeições no teto, dia após dia, na hora de dormir.

Viro para o lado e localizo o celular em cima do travesseiro. Segundo um aparelho eletrônico de 13 centímetros, estou atrasada para o estudo. Não que eu tenha aula hoje, não tenho, é domingo. O que me dá,  a cada segundo,  menos entusiasmo para começar a estudar. Mas não posso me dar ao luxo de voltar a dormir.

O que mais valorizo nas pessoas é a palavra. Cumprir coisas ditas pela boca; principalmente quando não estão formalizadas em documentos. Fiz um acordo comigo mesma. Decidi que agora iria ser diferente, de que faria ser diferente. Então a única opção que me resta, é escutar meu bom senso, e levantar. Já decepcionei tantas pessoas,  não posso, não quero, também, me decepcionar.

Mas isso agora não vem ao caso. Pessoas sábias  aprendem com o passado, sem deixar que ele afete negativamente suas vidas. Demorei muito para perceber; memórias existem, se não, para corrigir erros e repetir acertos. Diante disso, me recuso a lamentar pelos erros que cometi; também não me felicito por eles, simplesmente, adquiri maturidade o suficiente para aceita- los. Então, hora de acordar!